Carina Vitral Costa
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Agência ViraJovem - "Eu passei para o outro lado,
porque do outro lado da arma existe um coração batendo". A frase, de
MV Bill, foi dita numa Coletiva de Imprensa no último dia 28, sobre a
Central Única das Favelas (CUFA), uma ong tocada por ele juntamente
com jovens do movimento Hip-Hop, sambistas, artistas, lideranças
comunitárias, Presidentes de Associações de Moradores e trabalhadores
em geral, de diversas comunidades do Rio de Janeiro. Nega Gizza, que
também era esperada pela imprensa, não pôde comparecer.
Lendo com o rap, Núcleo de vídeo da CUFA, Semana Hutús, Oficinas de
graffiti e Espaço Alternativo de Entretenimento Comunitário são apenas
alguns projetos da organização. "Em relação ao tráfico, ao mesmo tempo
que eu consegui tirar um, eu vejo 15 entrarem! Na CUFA tiramos e
perdemos jovens para o tráfico, mas se tornou algo positivo porque
permite que eles se expressem", afirmou.
O carro chefe da CUFA é o Núcleo de Vídeos que, segundo o rapper, tem
muitas despesas com equipamentos. Tudo financiado pelo dinheiro de
shows do cantor. "Não uso minha fama para dar autógrafo, uso para
agendar uma reunião com o Lula, por exemplo, e levar mais jovens
comigo", disse MV Bill ao falar sobre o dia que foi recebido por Lula
acompanhado de uma comissão formada pelo movimento para discutir uma
maneira do hip hop ser mais valorizado, respeitado e participar do
processo político do Brasil.
O rapper produziu um clipe de 11 minutos chamado "Soldados do Morro",
sobre os meninos envolvidos com o tráfico nas favelas, mas a
repercussão foi negativa. O cantor foi chamado de marginal,
delinquente e até hoje responde processos por apologia ao crime, às
armas e ao tráfico de drogas.
Não satisfeito com isso, MV Bill começou a produzir
um documentário de 190 a 200 minutos onde retrata a vida de 40 jovens.
"A mídia mostra alguma coisa sobre o crime, mas nada além das armas.
Eu passei para o outro lado, porque do outro lado da arma existe um
coração batendo", afirmou.
Um mês depois das filmagens, 15 dos 16 jovens que narravam o
documentário morreram. Em entrevista, o único sobrevivente, que era
considerado o mais frio, disse que o maior sonho da vida dele era ser
palhaço e que sua maior mágoa era sua mãe ter morrido antes de cumprir
sua promessa: levá-lo ao circo do Beto Carreiro.
Bill o levou ao circo e viu nele novamente uma criança. O garoto o
prometeu que quando fizesse 18 anos ia largar a vida do tráfico, mas
no seu aniversário chorou para o rapper, assumindo que não conseguiria
cumprir sua promessa. "Ele estava na minha frente chorando, e eu
estava chorando por dentro em saber que eu não tinha poder de mudar
aquela situação!", contou emocionado.
Quando indagado sobre "Cidade de Deus", comentou que o filme não foi
gravado na favela, porque os moradores não deixaram, então eles foram
filmar em outro lugar. "Pessoas de 70, 80 anos que nunca foram ao
cinema, tiveram suas vidas retratadas num filme e sequer puderam
assisti-lo. Enquanto o filme estava prestes a ganhar o Oscar, a favela
estava prestes a ganhar o Oscar da violência", comentou MV Bill
reclamando que não houve nenhuma contrapartida à comunidade da parte
da produção.
Sobre as cotas para negros nas universidades o rapper disse que
gostaria que houvesse outra solução, mas por enquanto não vê outra
solução. Ele afirmou ainda que as cotas são imediatistas, mas vão
incluir bastante gente ao sistema público das universidades. "Muito
mais humilhante que entrar na universidade por cotas, é ver um bando
de pretos fora dela", observou o cantor.
O rapper disse ainda que se orgulha muito do encaminhamento do Hip-Hop
no Brasil e que ele está caminhando para um rap genuinamente
brasileiro. "Lula não vai salvar o Brasil sozinho, ele precisa de
você, de mim, de todos nós!", encerrou a entrevista sob muitos
aplausos.