Mayra Pontes - Agência ViraJovem
-
Isa Maria de Oliveira, secretária executiva do Fórum Nacional de
Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, participou hoje (28) da
oficina "Trabalho Infantil no Brasil", dentro das atividades
promovidas pela Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e
do Adolescente - ANCED no V Fórum Social Mundial. Em sua fala, ela
destacou os 10 anos de fundação do Fórum, comemorados em 2004, e a
realização da Caravana Nacional pela Erradicação do Trabalho Infantil.
Agência ViraJovem de Notícias - Em 2004 o Fórum Nacional de Prevenção
e Erradicação do Trabalho Infantil fez 10 anos. Que conquistas podem
ser comemoradas?
Isa Maria - Nós podemos registrar que o trabalho infantil no Brasil
vem reduzindo significativamente nesses últimos dez anos. Nós tínhamos
em 1992 mais de nove milhões de crianças entre cinco e 17 anos
trabalhando e esse número caiu para cinco milhões e 400 mil em 2001,
segundo dados da PNAD do IBGE. Esse é um registro importante.
Estamos registrando uma queda contínua do trabalho infantil no Brasil.
Mas esse número é muito preocupante. Representa um desafio muito
grande para as ações que devem ser implementadas pelo governo,
construídas em parceria com a sociedade civil.
AVJ - E quais as principais dificuldades que o Fórum enfrentou ao
longo desses dez anos?
Isa Maria - No Brasil, além da pobreza, da exclusão das famílias, a
cultura em defesa de que a criança precisa trabalhar para tornar-se
responsável e preparar-se para o futuro, para não envolver-se com a
marginalidade, ainda é muito forte. A mudança de valores é uma questão
que demanda muita sensibilização, muita articulação, muitas campanhas,
muito convencimento.
Isso é um processo demorado. Nós conseguimos algumas vitórias, mas eu
acho que temos muito o que avançar. Porque como a sociedade é
desigual, essa receita de trabalhar para tornar-se responsável, para
formar caráter é sempre para as crianças pobres. Então esse dado
merece atenção.
Agora é um dado que já temos presente e que estamos trabalhando no
sentido de conseguir fazer esse convencimento. Colocar o tema, através
de campanhas e debates, é muito importante. E a mídia tem um papel
fundamental.
AVJ - É possível dizer que a sociedade brasileira está mais sensível?
Isa Maria - Olha, o que eu acho é o seguinte: os 10 anos de atuação do
Fórum valeram a pena porque resultou, por exemplo, na ratificação da
convenção 138, que dispõe sobre a idade mínima, que o Brasil levou
mais tempo para ratificar. Resultou também na ratificação da convenção
sobre as piores formas de trabalho infantil.
Esses compromissos internacionais que reforçam a legislação
brasileira, que já é uma legislação que estabelece a prioridade na
proteção integral dos direitos da criança e do adolescente, foram
importantes.
Além desses, existem os compromissos que o Brasil assumiu com a ONU:
as Metas do Milênio. Então esses 10 anos - se você analisar que o
Fórum tem um caráter não institucionalizado, que é realmente singular,
plural - realmente valeram a pena. Eu acho que que se nós não
tivéssemos essas articulações fortes entre o governo e a sociedade
civil, estaríamos em uma situação muito mais grave.
AVJ - No ano passado, a Caravana Nacional pela Erradicação do Trabalho
Infantil percorreu todos os Estados brasileiros em uma forte
mobilização da sociedade. Como foi a recepção dos governadores?
Isa Maria - Nós tivemos dificuldades de articulação com alguns
governadores. Muitos, no primeiro momento, diziam: "Ah, o secretário
pode receber as crianças ou a vice-governadora ou o
vice-governador...". Então, foi todo um trabalho de sensibilização no
sentido de dizer que as crianças e os adolescentes fossem recebidos
pelos próprios governadores e que eles assinassem o termo de
compromisso pelo fim do trabalho infantil em seus respectivos estados.
O termo de compromisso era um instrumento político porque não exigia a
análise da assessoria jurídica do governador antes da assinatura. Mas
acho que é um instrumento político importante. Nós avançamos na
construção de um cenário mais favorável para fortalecer essa
articulação com os governos estaduais.
Hoje nós temos uma articulação boa com o governo federal, que está com
muitos ministérios representados no Fórum Nacional, mas os fóruns
estaduais enfrentam dificuldades de interlocução. Vencidas as
primeiras resistências, principalmente com os governadores de estados
maiores, que possuem uma agenda política mais cheia, nós conquistamos
esse espaço e um ponto importante foi a interlocução dos governadores
com as crianças.
AVJ - A Caravana já trouxe algum resultado?
Isa Maria - Alguns governadores - que eu não vou nomear porque um dos
grandes méritos dessa caravana foi que nós conseguimos em um ano
eleitoral realizá-la sem nenhum comprometimento com esse processo
político partidário - publicaram o termo de compromisso e a fala das
crianças no Diário Oficial.
Declararam "meu Estado vai ser o primeiro a erradicar o trabalho
infantil". Mas cabe a nós, a nossa capacidade de articulação, de
eficiência no sentido de ter fortalecido parcerias locais, agora
retornar.
Os fóruns estaduas vão enviar a cada governador o termo de compromisso
com todas as assinaturas no sentido de buscar essa articulação. A
Caravana
teve uma visibilidade boa nos estados e o encontro nacional em
dezembro também. Devemos voltar agora buscando alguma interlocução com
prefeituras
onde o foco do trabalho infantil é forte e que precisam realmente de
uma ação mais eficaz.
AVJ - A senhora acha que é realmente possível erradicar o trabalho
infantil no Brasil?
Isa Maria - O trabalho infantil no Brasil se renova. Por exemplo: a
gente acha que acabou aqui e de repente surge uma nova forma desse
trabalho. Agora, eu acho que nós podemos chegar a uma situação em que
as crianças estejam realmente nas escolas e que existam apenas focos
pontuais e que a
fiscalização possa ir e reverter a situação.
Na cultura na cana em Pernambuco, o Fórum Estadual diz que não existe
mais trabalho infantil, mas, por causa das migrações de famílias, pode
surgir um novo caso . Essa é uma situação mais fácil de resolver. É um
caso pontual. Agora existem problemas.
A indústria não utiliza mais o trabalho infantil, mas às vezes
terceiriza produtos que são feitos nos quintais por crianças. Nesses
casos, são as famílias que exploram.O trabalho com as famílias é muito
importante porque a relação de afetividade e proteção que os pais têm
pelas crianças é uma construção. Isso não é dado geneticamente.
Nas famílias vulnerabilizadas, muitas vezes lhes é retirado o direito
da construção da afetividade. Então essa é uma questão que a gente tem
que trabalhar muito: fortalecer as famílias para que elas tenham
condições de assumir a proteção de seus filhos, juntamente com o
Estado e a sociedade.
Leia também:
Adolescente indiana participa de movimento pelo fim do trabalho
infantil