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 Revista Viração e Projeto Agente Jovem (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome)

 Loucos por cidadania,
como Dom Quixote

30/jan -13h20

Uma das atividades mais concorridas e lotadas no Fórum Social Mundial foi o debate "Quixote Hoje: Utopia e Política", que reuniu, entre outros nomes, o Nobel de Literatura José Saramago e o escritor uruguaio Eduardo Galeano

Susana Sarmiento - Setor3- Agência ViraJovem - “Vou dar uma notícia má e outra pior ainda. A primeira é que não sou utópico, e a segunda que considero a idéia de conceito de utopia como algo inútil, como aquela idéia em que todos nós vamos para o paraíso depois de morrer." Essa foi a primeira afirmação de José Saramago, escritor português e prêmio Nobel de Literatura, durante o painel Quixote Hoje: Utopia e Política, no auditório Araújo Viana, em Porto Alegre, uma das atividades mais esperadas do Fórum Social Mundial.

Na mesa de discussão estavam nomes renomados do cenário político e da literatura. Entre eles, Ignacio Ramonet, editor do Le Monde Diplomatique; Federico Mayor, ex-diretor da Unesco e atual presidente da Fundação Cultura e Paz Vistoria Malvar, Roberto Savio, presidente da agência IPS e membro do Comitê Internacional do Fórum Social Mundial (FSM); Saramago, Luiz Dulci, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República e o jorbalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano.

O ponto de partida foi a definição e a opinião de cada representante sobre a utopia. “Estamos aqui no Fórum para nos dedicar há um momento de reflexão, um compromisso político. Milhões de pessoas de todo mundo atuam de forma intensa e, conseqüentemente, tem se modificado o conceito de utopia”, afirmou Savio.

“Muitos teóricos defendiam que a política é a arte do possível. Não. A política é que o impossível hoje para tornar-se possível amanhã”, afirmou Mayor. Ele ainda comentou que os cidadãos têm que ficar em estado de alerta, pois temos inimigos visíveis e invisíveis, e o Fórum Social Mundial é uma resistência pacífica e com propostas.
De acordo com Mayor, seja no calor ou no frio, a sociedade tem que semear nos jovens o sentido de mudança para o utópico se tornar realidade, sem impor nada de forma fanática e com uma obeservação cega. “A mudança termina quando há o silêncio, uniformidade e pensamento único”, falou.

O presidente da Fundação Cultura e PazVistoria Malvar disse ainda que há uma confusão entre os termos sabedoria e conhecimento. As duas palavras são necessárias para o entendimento de utopia, principalmente imaginação. Esta imaginação muda o estado das coisas.

Já o editor do Le Monde Diplomatique defendeu a questão do Dom Quixote como algo gerador de questionamentos e fez uma relação com a palavra utopia, de origem grega, que significa "nenhum lugar". O Dom Quixote, considerado um personagem louco, é aquele que quer mudar as coisas, chegando até a ser altruísta, já que seu valor e ser esforço batem de frente com as injustiças reais de seu mundo. “Dom Quixote queria construir um novo mundo e a principal analogia é entre Dom Quixote e os Quixotes e Quixotas do fórum. O fórum é um projeto louco e conseguimos fazer. Isso é uma utopia concreta. É uma assembléia de gente que querem transformar o mundo com o mesmo ideal. Não se trata de férias sociais. Estamos reconstruindo uma Torre de Babel”, comentou Ramonet.

O jornalista fez uma comparação sobre o custo de vida de uma vaca européia e o de um ser humano, que muitas vezes ganha menos de um dólar por dia. Assim, afirmou que vivemos num mundo de inversão, já que temos cerca de 1,5 bilhão de pessoas que vivem sem água potável; 2,5 bilhões sem eletricidade e apenas cinco de cada 100 pessoas usam tem acesso à internet.

Para mudar o atual cenário desigual, Ramonet propôs cinco metas. A primeira seria cobrar uma taxa planetária contra a fome e a miséria. Outra seria acabar com os paraísos fiscais; depois, eliminar a dívida externa dos países pobres. Outra meta é implantar uma moratória para que todos tenham o direito e acesso à água potável. E, por último, fixar um imposto de solidariedade para as grandes empresas ou instituições. “Ser um Quixote é ser um louco? Não é louco ser um Quixote que acredita que conseguimos mudar o mundo. Vamos mudar!”, finalizou.

“Paradoxo mundo, paradoxa vida e paradoxo Dom Quixote de la Mancha”, iniciou Galeano o seu discurso. O escritor uruguaio comentou que esta era mais uma novela imortal, nascida de uma prisão, onde Miguel Cervantes, autor do livro, expôs as injustiças do mundo.

Galeano contou a história pessoal, em que conheceu em Venezuela um pintor muito humilde, chamado Vargas. Ele era quase analfabeto, mas desenvolvia seus trabalhos em sua cidade. Pintava sua cidade como algo colorido e cheio de vida. Na verdade, a cidade natal de Vargas é uma região explorada pelo petróleo e há muita poluição. No entanto, suas obras mostram outra coisa bem diferente. “Quando perguntei o motivo de suas obras serem tão coloridas, ele respondeu que um amigo falou que ser realista é quando você pinta o que acredita. Assim, acredito que dentro desse mundo há outro mundo”, concluiu Galeano.

Já o ministro Luiz Dulci enfocou seu discurso na utopia política de forma positiva, como um projeto global que outro mundo é possível. Segundo o ministro, a busca de combater para uma sociedade mais justa se tornou um clichê e muitos já falam do fim da utopia, assim declinaríamos para o fim da história.

Entre vaias e aplausos, o representante do governo federal falou que a sociedade precisava realizar uma constante contestação. “Não há política de mudança sem utopia. Ela impulsiona a força real”, afirmou Dulci.

Saramago discordou de alguns colegas da mesa quando disse que a palavra utopia não significava nada, uma vez que há cerca de milhões de pessoas no mundo que vivem em situação de miséria e essa discussão não levaria a nenhum lugar. “Como se isso pudesse acrescentar alguma coisa aos movimentos de luta”, falou.
“Me desagrada discutir utopia, porque é discutir o que não existe. É aquele pensamento que não posso ter agora, mas posso ter algum dia. Vivemos de crenças e coisas que não têm nada a ver com a razão. Temos que fazer uma revisão criteriosa dos conceitos das palavras. As palavras são desgraçadas”, comentou Saramago.
O escritor português falou também da falta da discussão sobre a democracia condicionada. Segundo ele, o poder cidadão limita-se a tirar o governo que não gosta para colocar outro no lugar. “As organizações financeiras mundiais, como o FMI, não são democráticas. Quem escolhe os representantes de alguns países são partidos fortes”, afirmou.

“O mundo não foi utopia, mas necessidade. Não há tempo de enlouquecermos outra vez como Quixote”, finaliza Saramago. Após as apresentações sobre utopia, o painel foi aberto para um debate com o público, formando uma fila com mais de 20 pessoas para questionarem os participantes.
 

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Agência ViraJovem de Notícias - Cobertura do V Fórum Social Mundial - Porto Alegre 2005
As matérias são de livre reprodução, desde que citada a fonte


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