Uma das atividades mais concorridas e lotadas no
Fórum Social Mundial foi o debate "Quixote Hoje: Utopia e Política",
que reuniu, entre outros nomes, o Nobel de Literatura José Saramago e
o escritor uruguaio Eduardo Galeano
Susana Sarmiento - Setor3-
Agência ViraJovem - “Vou dar uma notícia má e
outra pior ainda. A primeira é que não sou utópico, e a segunda que
considero a idéia de conceito de utopia como algo inútil, como aquela
idéia em que todos nós vamos para o paraíso depois de morrer." Essa
foi a primeira afirmação de José Saramago, escritor português e prêmio
Nobel de Literatura, durante o painel Quixote Hoje: Utopia e Política,
no auditório Araújo Viana, em Porto Alegre, uma das atividades mais
esperadas do Fórum Social Mundial.
Na mesa de discussão estavam nomes renomados do cenário político e da
literatura. Entre eles, Ignacio Ramonet, editor do Le Monde
Diplomatique; Federico Mayor, ex-diretor da Unesco e atual presidente
da Fundação Cultura e Paz Vistoria Malvar, Roberto Savio, presidente
da agência IPS e membro do Comitê Internacional do Fórum Social
Mundial (FSM); Saramago, Luiz Dulci, ministro-chefe da
Secretaria-Geral da Presidência da República e o jorbalista e escritor
uruguaio Eduardo Galeano.
O ponto de partida foi a definição e a opinião de cada representante
sobre a utopia. “Estamos aqui no Fórum para nos dedicar há um momento
de reflexão, um compromisso político. Milhões de pessoas de todo mundo
atuam de forma intensa e, conseqüentemente, tem se modificado o
conceito de utopia”, afirmou Savio.
“Muitos teóricos defendiam que a política é a arte do possível. Não. A
política é que o impossível hoje para tornar-se possível amanhã”,
afirmou Mayor. Ele ainda comentou que os cidadãos têm que ficar em
estado de alerta, pois temos inimigos visíveis e invisíveis, e o Fórum
Social Mundial é uma resistência pacífica e com propostas.
De acordo com Mayor, seja no calor ou no frio, a sociedade tem que
semear nos jovens o sentido de mudança para o utópico se tornar
realidade, sem impor nada de forma fanática e com uma obeservação
cega. “A mudança termina quando há o silêncio, uniformidade e
pensamento único”, falou.
O presidente da Fundação Cultura e PazVistoria Malvar disse ainda que
há uma confusão entre os termos sabedoria e conhecimento. As duas
palavras são necessárias para o entendimento de utopia, principalmente
imaginação. Esta imaginação muda o estado das coisas.
Já o editor do Le Monde Diplomatique defendeu a questão do Dom Quixote
como algo gerador de questionamentos e fez uma relação com a palavra
utopia, de origem grega, que significa "nenhum lugar". O Dom Quixote,
considerado um personagem louco, é aquele que quer mudar as coisas,
chegando até a ser altruísta, já que seu valor e ser esforço batem de
frente com as injustiças reais de seu mundo. “Dom Quixote queria
construir um novo mundo e a principal analogia é entre Dom Quixote e
os Quixotes e Quixotas do fórum. O fórum é um projeto louco e
conseguimos fazer. Isso é uma utopia concreta. É uma assembléia de
gente que querem transformar o mundo com o mesmo ideal. Não se trata
de férias sociais. Estamos reconstruindo uma Torre de Babel”, comentou
Ramonet.
O jornalista fez uma comparação sobre o custo de vida de uma vaca
européia e o de um ser humano, que muitas vezes ganha menos de um
dólar por dia. Assim, afirmou que vivemos num mundo de inversão, já
que temos cerca de 1,5 bilhão de pessoas que vivem sem água potável;
2,5 bilhões sem eletricidade e apenas cinco de cada 100 pessoas usam
tem acesso à internet.
Para mudar o atual cenário desigual, Ramonet propôs cinco metas. A
primeira seria cobrar uma taxa planetária contra a fome e a miséria.
Outra seria acabar com os paraísos fiscais; depois, eliminar a dívida
externa dos países pobres. Outra meta é implantar uma moratória para
que todos tenham o direito e acesso à água potável. E, por último,
fixar um imposto de solidariedade para as grandes empresas ou
instituições. “Ser um Quixote é ser um louco? Não é louco ser um
Quixote que acredita que conseguimos mudar o mundo. Vamos mudar!”,
finalizou.
“Paradoxo mundo, paradoxa vida e paradoxo Dom Quixote de la Mancha”,
iniciou Galeano o seu discurso. O escritor uruguaio comentou que esta
era mais uma novela imortal, nascida de uma prisão, onde Miguel
Cervantes, autor do livro, expôs as injustiças do mundo.
Galeano contou a história pessoal, em que conheceu em Venezuela um
pintor muito humilde, chamado Vargas. Ele era quase analfabeto, mas
desenvolvia seus trabalhos em sua cidade. Pintava sua cidade como algo
colorido e cheio de vida. Na verdade, a cidade natal de Vargas é uma
região explorada pelo petróleo e há muita poluição. No entanto, suas
obras mostram outra coisa bem diferente. “Quando perguntei o motivo de
suas obras serem tão coloridas, ele respondeu que um amigo falou que
ser realista é quando você pinta o que acredita. Assim, acredito que
dentro desse mundo há outro mundo”, concluiu Galeano.
Já o ministro Luiz Dulci enfocou seu discurso na utopia política de
forma positiva, como um projeto global que outro mundo é possível.
Segundo o ministro, a busca de combater para uma sociedade mais justa
se tornou um clichê e muitos já falam do fim da utopia, assim
declinaríamos para o fim da história.
Entre vaias e aplausos, o representante do governo federal falou que a
sociedade precisava realizar uma constante contestação. “Não há
política de mudança sem utopia. Ela impulsiona a força real”, afirmou
Dulci.
Saramago discordou de alguns colegas da mesa quando disse que a
palavra utopia não significava nada, uma vez que há cerca de milhões
de pessoas no mundo que vivem em situação de miséria e essa discussão
não levaria a nenhum lugar. “Como se isso pudesse acrescentar alguma
coisa aos movimentos de luta”, falou.
“Me desagrada discutir utopia, porque é discutir o que não existe. É
aquele pensamento que não posso ter agora, mas posso ter algum dia.
Vivemos de crenças e coisas que não têm nada a ver com a razão. Temos
que fazer uma revisão criteriosa dos conceitos das palavras. As
palavras são desgraçadas”, comentou Saramago.
O escritor português falou também da falta da discussão sobre a
democracia condicionada. Segundo ele, o poder cidadão limita-se a
tirar o governo que não gosta para colocar outro no lugar. “As
organizações financeiras mundiais, como o FMI, não são democráticas.
Quem escolhe os representantes de alguns países são partidos fortes”,
afirmou.
“O mundo não foi utopia, mas necessidade. Não há tempo de
enlouquecermos outra vez como Quixote”, finaliza Saramago. Após as
apresentações sobre utopia, o painel foi aberto para um debate com o
público, formando uma fila com mais de 20 pessoas para questionarem os
participantes.