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foto: colaboração de Fernando Moran |
João Felipe Scarpelini, Luísa Gouvêa do Prado,
Carina Vitral Costa, Nathalia Dias Petrovich e Tiago -
Agência ViraJovem
Como nós jovens que fazemos parte de projetos de empreendedorismo e
protagonismo ou possuem projetos na área de educomunicação podem
começar a trabalhar?
Ismar Soares - Nós temos algumas ONGs que já fazem parte desse
trabalho. Em São Paulo a mais conhecida é a "Cala a Boca Já Morreu".
Eles trabalham expressamente com conceito de educomunicação. Agora, o
importante no caso de vocês seria conviver com alguma experiência
educomunicativa, conviver com ONGs que já fazem isso e participar de
algum projeto de formação que uma universidade possa estar oferecendo.
Nós temos um trabalho chamado Rede Brasileira de Educomunicadores e
vocês poderiam entrar nessa rede. Passarão a receber um boletim
informativo poderão promover cursos de formação convidando alguma
pessoa que já tenha experiência maior ou o próprio núcleo do "Cala
Boca" para dividir com vocês uma literatura e uma prática sobre isso.
Então a questão é de interesse. O importante é que vocês tomem
iniciativa, comecem a fazer algo e provocar demandas. No caso da
prefeitura vocês poderão chegar com os projetos. Inicialmente com
projetos de valor reduzido, para não espantar também o cliente. Mas
acredito que já exista um nome circulando. Certamente alguém da
prefeitura (de São Paulo) já ouviu falar algo sobre isso, o que poderá
permitir que vocês avancem.
AVJ - Existe alguma regra para se fazer educomunicação?
Ismar - Existe uma regra fundamental para nós que é criar
ecossistemas comunicativos, dialógicos. Então se a sua ONG tem
tendência a um comando rígido, centralizado, dificulta. A
educomunicação não trabalha com comandos autoritários porque a questão
do debate é uma questão permante. O debate é a crise. A crise sempre
vai existir porque as pessoas, os humanos têm interesses pessoais e
conciliar crises é fazer uma prática dentro da própria instituição,
que seja democrática. Porque quando vocês forem dialogar com a
sociedade, vão levar essa idéia, se não viverem essa idéia a
contradição vai ficar evidente e vocês vão fracassar. Existem algumas
normas de procedimentos com respeito aos conceitos básicos, como
existem normas em uma relação funcionalista.Vai existir as linhas
editoriais, o comando do chefe de redação...Linhas de procedimento
existe sim. São téoricas, mas têm que vir de uma convivência prática.
AVJ - As emissoras ou órgãos que trabalham com educomunicação têm
algum privilégio? Por exemplo, desconto que incentive não só as
escolas, não só as pessoas, mas as próprias emissoras?
Ismar - Tudo isso aí poderá vir com a regulamentação de lei. A lei
em si não entra nesses detalhes, porém, como a lei prevê que a
prefeitura se abra ao uso das tecnologias nos chamados equipamentos
públicos, isso vai dizer que é necessário licitação, contratações e
como serão feitas essas contratações. É possível que na regulamentação
da lei isso apareça. Ou senão, se não for na regulamentação, na
criação de projetos. Vamos supor que uma emisssora de televisão, uma
TV comunitária que queria entrar nesse processo, a lei vai ter que
prever como isso será feito. Em geral, o que acontece é que as
Secretárias de Educação, de Cultura, nos seus projetos, vão contratar.
Geralmente os contratos são por ações concretas. O que você tá dizendo
é algo que estaria embutido numa contratação. Se o contrato é de
cultura, ou uma tv comercial, ou comunitária para fazer algum tipo de
trabalho, haverá uma remuneração para isso. Agora qual a remuneração,
como isso é feito, se é através de desconto de imposto ou de
pagamentos, isso tudo é uma questão de prática. Certamente a
regulamentação vai falar da relação entre a prefeitura e os veiculos
de comunicação existentes.
AVJ - O conceito do Educom tem alguma coisa a ver com o de
pedagogia empreendedora?
Ismar - Sua pergunta é muito interessante, porque quando falamos
em protagonismo, das pessoas, dos jovens, das mulheres, crianças...
Esse protagonismo é justamente exercitado através de ações. Nós sempre
terminamos os nossos cursos com o chamado planejamento. Vamos planejar
juntos? Planejar o quê? Uma ação empreendedora. Só que o que nós
acrescentamos de empreendedorismo é a comunicação dialógica. Então,
não é um empreendedorismo de alguém que sozinho toca um projeto. Mas
um empreendedor que consegue alianças de outros grupos, pessoas e sabe
conviver com a diversidade para poder levar adiante o projeto.
Mas é exatamente essa questão. Tenho um exemplo
concreto interessante que foi um trabalho que aconteceu numa aldeia
Xavante. Fomos a uma aldeia Xavante com o Educom e a aldeia já tem
equipamento de rádio funcionando lá. Nosso capacitador, que mandamos
para lá, chamado Mário, tem mestrado e é paraguaio, fala guarani.
Quando ele chegou à aldeia, chegou falando guarani e os índios ficaram
espantados, porque imaginaram que falar no rádio, era só em português,
porque o que eles escutavam de rádio era em português. Então eles
ficaram imaginando que iam fazer rádio em português e o mediador,
instrutor, chegou falando na língua deles. Então, já quebrou o gelo
entre eles.
Segundo capítulo: Chegamos, reunimos os jovens da
aldeia, meninos e meninas. Começaram a trabalhar. As meninas foram
muito mais rápidas e começaram a fazer os programas e irem para o ar.
Daqui a pouquinho o cacique se deu conta de que na lei da tribo, no
costume da tribo, as mulheres não falavam em público e elas tinham
gírias e palavras e conceitos que só falavam entre elas. E os meninos,
por sua vez, tinham também suas gírias, e um não conhecia as gírias
dos outros.
De repente, isso tudo era quebrado através do
rádio. O cacique quis impedir, mas as moças disseram que não podiam
parar porque o cacique maior havia ordenado que elas usassem o rádio.
O cacique maior era o Lula, porque o projeto era Federal e o
equipamento vem através do Ministério da Educação. Então criou-se uma
situação que estamos tentando resolver com o cacique. Ele não quer que
as meninas falem e elas disseram que não vão parar mais de falar. Isso
é protagonismo e é um exemplo que nos comoveu muito por ser um exemplo
de natureza antropológica.
AVJ – Através do filme “Uma onda no ar”
geraram-se vários debates sobre as rádios comunitárias e a Anatel, que
fecha essas rádios. O Educom.radio também faz rádioscomunitárias. Qual
é a relação do Educom com a Anatel? Vocês sofrem esse tipo de
problema? Está tudo resolvido?
Ismar - O Educom, para funcionar rapidamente, não pode ferir a
legislação, porque ele vai ser impedido. Nós trabalhamos com a chamada
radiodifusão restrita, que é uma radiodifusão permitida para espaços
como este aqui (do Fórum). Então nós podíamos ter aqui uma emissora de
rádio, em que as caixas receptoras seriam os equipamentos que recebem
aquele sinal e outro não equipamento não recebe. Com isso nós
conseguimos fazer com que dentro de um espaço como um centro cultural
ou de uma escola, você tendo uma antena em ponto alto, consiga uma
extensão de 100, 200, 300, 500 metros. E dentro desse espaço você faz
rádio. Este é um capítulo.
Agora, a capacitação que nós demos para fazer
aquela rádio restrita é a mesma para você fazer a rádio comunitária.
Então, nós incentivamos essas pessoas a criarem suas rádios e lutarem
para conseguir o sinal de suas rádios. Em Brasília, nós estamos
tentando convencer o governo a que seja mais rápida a concessão de
rádios comunitárias, porque a maioria das pessoas do Centro-Oeste vive
em comunidades muito distantes, e não adianta nada aquela rádio
restrita. Mesmo uma tribo indígena, eles precisam de uma rádio
comunitária um pouco maior. Então, é uma conversa que estamos tendo
com o Ministério da Educação para que influencie o Ministério das
Comunicações a ser mais rápido na outorga de concessões de rádios
comunitárias. Nós estamos unidos a todo movimento de rádios
comunitárias de São Paulo. Quer dizer, o que nós fazemos é o trabalho
de formação de agentes para assumir todas as propostas de rádios
comunitárias existentes no país. Gente para trabalhar e difundir a
prática da rádio comunitária.
AVJ - O que estabelece que uma ação é
educomunicação? Tem que ter necessariamente ter educação e
comunicação? Não pode envolver outras áreas que não seja
necessariamente educação, mas que tenha a comunicação?
Ismar - Você me coloca diante de uma pergunta que é muito
importante, porque nós desenvolvemos em 2004 um curso para a área de
saúde. Então nós trabalhamos com 90 agentes de vigilância de saúde de
São Paulo. Eles tinham um problema: todos os materiais de divulgação
para a prevenção da Aids, prevenção da dengue ou de outras doenças,
não surtiu efeito. Os casos continuam a aumentar. Então eles estavam
na dúvida se o marketing resolvia. E aí, nós fizemos um curso com eles
sobre educomunicação e saúde. No fim, eles fizeram projetos que eram
“diálogo com a comunidade” e fazer com que a própria comunidade
produzisse material a respeito dos conteúdos que queriam trabalhar ou
descobrir novas formas que a comunidade tinha de se comunicar. Então,
não era exatamente a comunicação, a educação, no sentido escolar. Era
um trabalho de relação comunicativa e educativa ampla com a população.
Outro capítulo: o Ministério do Meio Ambiente está
dialogando com a gente a respeito de um projeto para o Meio Ambiente:
“Educomunicação e Meio Ambiente”. Inclusive já criaram uma uma rede de
educomunicadores para o meio ambiente. Também estão entendendo que
Meio Ambiente, se não tiver envolvimento da população, não dá
resultados. Então, a área da Educomuniação não é exclusiva da educação
formal. Ela pode se dar em todas as áreas que envolvam a participação
coletiva da população na produção de conhecimento, de ações coletivas
e a prática da comunicação que exista nesse processo.
AVJ – Você gostaria de acrescentar algo mais?
Ismar - Acho que os pontos essenciais são esses. O que eu imagino
ainda que deva acontecer é que os estudantes de comunicação do Brasil
precisam tomar as rédeas do processo e exigirem que as universidades
criem cursos de educomunicação. Porque os donos não farão isso. Porque
os donos não farão isso, os donos têm receio de que poderão perder
dinheiro. Então eles ficam repetindo. Uma faculdade nova surge a cada
esquina do Brasil - mesma coisa jornalismo, relações públicas,
publicidade - e eles não são capazes de enxergar outro campo.
Porém não são só os donos. Também são as pessoas que coordenam áreas.
A educomunicação é uma área nova. Quem é formado, é formado nas áreas
tradicionais. Eles mesmos não seriam capazes de criar essa área
educomunicativa porque não têm formação nisso. Os estudantes que já
estão numa prática é que poderiam estar fazendo pressão. Então eu
imagino que a Enecos e outros organismos dos estudantes de comunicação
deveriam estar mais ativos nisso. Porém eles também não têm condições
de fazer isso se não tiver a inspiração de quem já está no campo.