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14 anos de lamentações e
injustiças na Candelária
Amanda Moraes e Marcos Silva (fotos:
Amanda Moraes) -
PAPOPAN* / Agência ViraJovem de Notícias -
27/07/2007 - 11h30 - A 14 anos atrás
mais de 70 crianças e adolescentes
dormiam
na Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, quando foram surpreendidas pela
polícia carioca. O resultado desse episódio ficou conhecido,
internacionalmente, como a Chacina da Candelária e entrou, em definitivo,
para o calendário como um
dos
piores crimes cometidos contra os Direitos Humanos e o Estatuto da Criança e
do Adolescente. Oito crianças morreram fuziladas, sem ter a menor chance de
defesa, e outras dezenas saíram feridas.
Para relembrar esse massacre, no dia 23 de julho, mais de 200 pessoas se
reuniram na Igreja da Candelária para rezar uma missa em homenagem aos 14
anos da chacina e para organizar uma passeata contra a redução da maioridade
penal.
Segundo Aniele, 20 anos, educadora, “os direitos humanos no Brasil não estão
sendo respeitados”. Já Mário Barreto, do movimento estudantil Nós Não Vamos
Pagar Nada, acredita que “hoje em dia é uma questão muito mal colocada no
Brasil. Porque as pessoas não percebem que a questão da segurança pública
está atrelada à falta
de direitos humanos. Então elas querem mais violência
e mais repressão como se isso fosse resolver”.
Porém, Isaac Loureiro pondera seu discurso: “É muito relativo porque há
muitas partes sérias e não sérias envolvidas nessa questão. Inclusive o
governador Sérgio Cabral que distribui cartilhas sobre direitos humanos, mas
que invade as favelas e comete atos que não condizem ao seu discurso”.
Júlio César, participante do Sindicato Estadual dos Profissionais de
Educação (SEPE) também tem sua opinião: “na verdade é um sentimento de
revolta, não só contra o cidadão que cometeu esse ato, mas do sistema como
um todo. Mas também esses policiais são reféns da própria rede em que
trabalham, pois não recebem o devido preparo para proceder corretamente”.
A questão da segurança pública perpassa pela garantia dos direitos humanos,
que, na prática, não são a prioridade do governo e do sistema em que
vivemos. Convivemos diariamente com as injustiças sociais, tal como a
Chacina da Candelária, exemplo de uma forma grotesca de tentar resolver um
problema social que está entranhado em nossa sociedade.
Veja as entrevistas completas:
Edilaine – 17 anos – Moradora de rua
1)Em sua opinião, como você a participação do governo para resolver a
questão da população de rua?
Se o governo fosse bom, ele daria casa para as pessoas de rua morar.
2)Na sua opinião o legado social do Pan, pode beneficiar de alguma forma a
população de rua?
Não vai ajudar em nada, porque eles estão tirando a mercadoria de quem
trabalha na rua, e isso para mim é uma falta de respeito.
3)Como você vê esse episodio lamentável da chacina da candelária?
Uma vergonha, pois eles estão soltos e um deles já até me ameaçou dizendo
que vai fazer igual na chacina.
4)Porque abandonou seu lar e veio para rua?
Não conheci minha mãe verdadeira e minha mãe adotiva esperou eu nascer para
me abandonar na rua. Eu moro na rua há 14 anos. Minha filha tem dois anos, e
eu a tive na praça XV, passei meu resguardo na rua, pois minha mãe não me
aceitou em causa por causa do meu padastro.
5)Qual a dificuldade de criar uma criança na rua?
Tem mãe que vende a criança por causa de droga, eu não faço isso. Eu vendo
doce para criar minha filha.
6)Qual futuro que você sonha para sua filha?
Eu quero sair da rua, dar um futuro para minha filha, para ela estudar, ser
uma advogada, uma veterinária ou ate uma médica, o que for bom para ela. Só
não quero que ela cresça na rua. Não quero minha filha vendendo doce, eu vou
trabalhar para ela.
7)Qual seria a melhor forma para vocês serem ajudados?
Queria que o prefeito olhasse para nós e se colocasse no nosso lugar, para
nos dar casa, nem que fosse um barraco.
Aniele – 20 anos – jovem educadora de um projeto psicosocial, que trabalha
com crianças e adolescentes em situações de riscos e de rua. O projeto se
encontra na baixada fluminense em Queimados.
1)Em sua opinião como esta à questão dos direitos humanos no Brasil?
Na minha opinião não estão sendo respeitados de jeito nenhum, temos vários
descasos, vários acontecimentos no Brasil e pelo mundo também envolvendo
crianças e adolescentes. Os direitos fundamentais das crianças e dos
adolescentes não estão sendo comprimidos, são vários descasos mesmo.
2)Em relação a absolvição dos policiais que cometeram essa barbárie. Qual o
sentimento que você tem?
Sentimento de revolta, porque se fosse outras pessoas que tivesse matado, é
bandido, e já estariam presos e ficariam anos na cadeia, por isso que meu
sentimento é de revolta. Só porque são policiais não podem ficar presos,
isso é um absurdo, eles cometeram um ato que chocou o Brasil e o mundo.
3)Como a senhora vê a questão da população de rua?
Eu já fui uma menina de em situação de rua e graças a Deus hoje eu estou no
projeto trabalhando. E na minha opinião a sociedade fecha os olhos para a
população de rua, não só para crianças e adolescentes, mas para todos os
jovens, eles tinham que dar mais atenção, criar projetos em função da
população de rua.
4)Na sua opinião o legado social do Pan, pode beneficiar de alguma forma a
população de rua?
Em partes não, porque a nossa cidade esta fantasiada e maquiada para o Pan.
Eles recolheram algumas crianças que das ruas, outras não. Por outro lado o
Pan pode ajudar muito, pois tem muitas crianças que saíram das ruas para
competir e fazer algum esporte, e isso é um bom caminho.
5)Na sua opinião qual a principal carência de rua?
É a carência de afeto, de aproximação, de carinho, de oportunidade, etc.
Para mim jovem que se encontram na rua, tem talento, só não tem
oportunidades. A sociedade deveria dar.
6)E por qual motivo você procurou as ruas, e acha que meninos e meninas saem
de casa?
Muitos são pela família, que não dão atenção ou ate mesmo por falta de
oportunidades para se expressar. Às vezes a família joga na escola e acha
que lá eles vão se educar, mas não é sempre assim. Alguns pais têm problemas
com a bebida e nem tem comida em cãs para os filhos, daí os jovens vão para
as ruas para tentar se aliviar. Comigo foi assim não tinha nada para mim
dentro de casa, minha mãe me batia, ai eu fui para as ruas do Rio e achei
que aqui seria o melhor lugar para mim e não foi.
7)E como você foi resgatada?
Eu fui resgatada quando me deram a oportunidade de me expressar, de ver o
que eu tinha, que era um grande talento escondido. Descobrir que eu era um
ator social e protagonista da minha própria vida. Daí eu encontrei esse
projeto e vários outros que acolhem crianças de rua, tive a visão de que eu
posso mudar, basta querer.
8)Como você acha que a mídia pode ajudar as pessoas que estão nessa
situação?
Dando oportunidades para os jovens se expressar, falar, mostrar o que sabe,
o que esta escondido no oculto e mudar cada vez mais.
José Varela – 50 anos – repórter fotográfico
1)Em sua opinião como esta à questão dos direitos humanos no Brasil?
Você tem quanto tempo de fita ai para gravar? (risos), porque nós temos
muitos problemas na área de direitos humanos. Mas o principal é a violência
policial, a falta de políticas publica que amparem os mais pobres, as
famílias desestruturadas e de apoio na educação para os jovens.
2)Como a mídia pode ajudara população a resolver esses impasses?
Cabe a mídia denunciar os problemas diariamente.
3)Em relação à chacina, o que você acha dos policiais terem sido absolvidos
após a barbárie?
Não nem para falar nada.
4)Na sua opinião o legado social do Pan, pode beneficiar de alguma forma a
população de rua?
Depende de políticas publicas, um prédio so não ajuda em nada, porque agente
esta cansada de construir coisas maravilhosas e não ter dinheiros para
mantê-las. E acaba não tendo a política de manutenção e de aproveitamento.
5)E qual a importância da mídia esta cobrindo esse evento?
Olha é não deixar a sociedade esquecer das suas mazelas e não deixar que se
cale diante da impunidade. É basicamente isso.
Rita de cássia – 35 anos – Educadora do Projeto São Martinho
1)Qual a importância do seu projeto para ajudar as pessoas de rua, sobretudo
a mais carente?
A gente se preocupa com todo essa estrutura que acaba não contemplando a
necessidade dos meninos, e nos procuramos na medida do possível, oferecer de
alguma forma, meios que eles possam sair dessa situação ou reinserção
familiar ou de abrigamento sempre visando com o objetivo de que eles tenham
uma noção e uma conversa com a reflexão sobre um meio. Sobre a sociedade,
sobre o descaso do governo, etc.
2)Na sua opinião, projetos como o seu surgiram de auxílio para as pessoas
saírem da rua?
Sim, uma vida com dignidade, um suporte para minimizar essas demandas, já
que o estado não cumpre com seu papel, o São Martinho vem para dar suporte
aos meninos em situação de rua.
3)Em relação à chacina, o que você acha dos policiais terem sido absolvidos
após a barbárie?
Eu fico surpresa porque é mais uma barbaridade no ar, foi com os meninos da
candelária, com as mães de acari e vai por ai, é sem fim. Uma falta de
cumprimento da justiça.
4)Em sua opinião como esta à questão dos direitos humanos no Brasil?
Faz seu papel, pelo menos tenta, estão de parabéns a comissão dos diretos
humanos que estão para servir o povo e para suprir mais um descaso do
governo.
5)Na sua opinião, o legado social do Pan, pode beneficiar de alguma forma a
população de rua?
Poderia integrar as crianças de rua nesses eventos do Pan. Com as
instituições, com os projetos, etc. Poderia ser feito dessa forma.
6)E qual a importância da mídia esta cobrindo esse evento?
Trazer a verdade para a sociedade, não favorecendo quem tem dinheiro ou
poder. A imprensa vem para todos, para dizer a verdade ao povo e ser
transparente.
Patrícia Cristina , 20 anos, educadora social, de Itaboraí
1) Como você vê a questão dos direitos humanos no Brasil?
Não existe, existe para alguns para a classe dominante, podemos dizer assim
mas não para o povo. Para aqueles que lutam a cada dia , que precisam
acordar às 5hs da manhã e ainda têm que chegar em casa e ainda ter que fazer
comida para os filhos e fazer várias coisas ,pra gente não existe.
2)Em sua opinião o que podemos fazer para que episódios como esses não se
repitam?
Primeiramente evolução , uma involução, teríamos que voltar a estaca zero ,
só que praticamente isso é uma coisa impossível. A gente pensa em vária s
estratégias para isso acontecer só que a gente precisa realmente evoluir
outros querem continuar na conformidade e isso acaba atrapalhando a vida das
pessoas.
3)Quais são os fatores que geram este tipo de violência ?
Desemprego, drogas , falta de diálogo dentro de casa , falta de comunicação
social ,falta de respeito falta de maturidade descompromisso com os mesmos ,
falta de Deus .Que se a gente não tem Deus a gente não é nada.Além de outras
coisas mais.
4)Qual a sua relação com a chacina?
Nenhuma diretamente, mas como eu sou humana procuro a cada dia ser sensível,
pois só uma pessoa realmente humana sente ou tenta ser sensível a estes
casos.
5)O que você pensa sobre a absolvição dos policias envolvidos por júri
popular?
Acho uma pouca vergonha, pois se fosse a família deles, obviamente o
pensamento seria diferente.Acho que isso a gente não faz nem com cachorro
então eles fazem o que fazem e é como se estivessem entrando e saindo do
estádio do Maracanã.
Mário Barreto , estudante de ciências sociais UFRJ- Movimento Estudantil
“Nós Não Vamos Pagar Nada”.
1)Como você vê a questão dos direitos humanos no Brasil?
Hoje em dia é uma questão muito mal colocada no Brasil.Porque as pessoas não
percebem que a questão da segurança pública está atrelada a falta de
direitos humanos.Então elas querem mais violência e mais repressão como se
isso fosse resolver.
2)Em sua opinião o que podemos fazer para que episódios como esses não se
repitam?
Então o estado tem que começar a se preocupar não só em punir e não ir só
nas comunidades com a força policial mas também com os direitos básicos.
3)Quais são os fatores que geram este tipo de violência?
Esses policiais terem sido inocentados reflete a não compreensão por parte
da nossa sociedade em relação aos direitos humanos.
4)Como você vê esse discenso entre avanço legislativo e o não cumprimento
dos direitos básicos?
É o claro efeito de um Estado burguês que preocupa-se mais com a economia do
que com a distribuição de renda.
5)Como você acha que a mídia pode colaborar na luta desse e outros
movimentos?
Pode ajudar na não criminalização da pobreza e mostrando que esta é uma
questão social .
Isaac Loureiro Júnior , diretor do SINDISPREV / RJ
1) Como você vê a questão dos direitos humanos no Brasil?
É muito relativa porque há muitas partes sérias e não sérias envolvidas
nessa questão como inclusive o governador Sérgio Cabral que distribui
cartilhas sobre direitos humanos , mas que invade as favelas e comete atos
que não condizem seu discurso.
2) O que você pensa sobre a absolvição dos policias envolvidos por júri
popular?
É mais uma ação criminosa não do júri, mas de um conjunto de pessoas que
estão aí para perpetuar esse sistema e financiar esses criminosos e a
defende- los perante a sociedade.
3) Em sua opinião o que podemos fazer para que episódios como esses não se
repitam?
A começar pela educação, oportunizando os jovens.Porque não adianta nada por
uma redução na maioridade penal se não são dadas as mesmas oportunidades as
pessoas de comunidades.
4) O que leva um jovem a ir para as ruas?
A própria degradação da família, a falta de estrutura dela que afeta
diretamente a essas pessoas e a própria sociedade que já exclui eles de seu
convívio, marginalizando-os.
5)Em relação ao Legado Social do pan , você acha que irá beneficiar a
população de rua?
É se pegassem esse dinheiro e investisse no cumprimento dos direitos
básicos, incluído a formação dos jovens , isso seria um grande triunfo pra
essa galera ,seria um grande legado. Mas não que o Pan não tivesse acontecer
mas sim de uma forma mais igual.
6)Você tem visto a população de rua durante este período do Pan?
No subúrbio longe dos locais e das rotas de competições você ainda vê, mas
não próximos aos locais de vista das autoridades internacionais.
Márcia Antunes, 37 anos
1) Em sua opinião o que podemos fazer para que episódios como esses não se
repitam?
Olha sinceramente se houvesse justiça e leis sérias para esse tipo de ato
,as coisas não estariam assim , pois eles acham que são superiores porque
são policiais.
2) Por qual razão você está defendendo esta causa?
Porque eu tenho problema na minha família, com o meu filho e luto com ele
pra que ele não continue nessa.
Jorge César , SEPE e INTERSINDICAL.
1)Como você vê a questão dos direitos humanos no Brasil?
Extremamente precário, a gente vê isso refletido no sistema penitenciário
tanto adulto quanto de jovens. Os direitos humanos não são respeitados e a
gente vê todo dia nos jornais , mesmo por parte da força policial que
deveria ser promotora desses direitos , mas não é o que acontece .
2) O que você acha do discenso entre avanço legislativo e o não cumprimento
desses direitos?
Infelizmente a gente tem leis para inglês ver e é em diversos setores da
nossa sociedade.Porque nós temos um governo que não tem o interesse em
romper com esse pragmatismo social.
3) Em sua opinião o que podemos fazer para que episódios como esses não se
repitam?
Na verdade é um sentimento de revolta, não só contra o cidadão que cometeu
esse ato , mas do sistema como um todo.Mas também esses policiais são reféns
da própria rede em que trabalham pois não recebem o devido preparo para
proceder corretamente.
A situação que nós vivemos deve ser conhecida por toda a sociedade e só
assim poderemos dar um basta nessa situação.
4) Qual o Legado Social que você acha que o Pan vai deixar?
Olha infelizmente esse legado é nenhum além do custo absurdo que houve para
o Pan. A gente viu a poucos dias um complexo que custou 4 milhões ser
desmontado após seu uso. Além dessas ações “imediatistas” a gente não vê uma
continuidade de investimentos em esporte e lazer.
Max Oliveira , 18 anos – Técnico em informática.
1)Como você vê a questão dos direitos humanos no Brasil?
Existe só no papel , mas na pratica é nula.
2)Em sua opinião o que podemos fazer para que episódios como esses não se
repitam?
Eu penso que o povo é muito conformado, com tudo o que sai, não tem ação
para protestar, e as pequenas coisas só acontecem graças a conformação do
povo.
3)Por que você está aqui no Ato?
É porque se eu fazer minha parte, mesmo que seja pequena, outras pessoas
irão se animar e incentivar a fazer.
*PAPOPAN = Projeto
Autenticamente Protagonizado e Organizado Por
Adolescentes e jovens iNovadores
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